Manipulação alimentar

Os avanços no campo da bioquímica e da engenharia genética trouxeram profundas alterações na forma como o Homem passou a encarar a natureza. As recentes técnicas de selecção e manipulação de genes têm vindo a ser aplicadas em diversas áreas e a agricultura não é excepção.
O objectivo do processo de mutação genética é chegar a um organismo cujas características sejam aquelas que mais interessem ao produtor. De acordo com a definição adoptada na UE, um Organismo Geneticamente Modificado (OGM) é “um organismo cujo material genético tenha sido modificado de uma forma que não ocorre por comportamentos e/ou recombinação natural”.

A descoberta da molécula da hereditariedade na década de quarenta lançou as primeiras bases da genética actual e impulsionou o desenvolvimento da indústria agro–alimentar que se verificou durante a década seguinte. Assim, fruto de variados estudos e investigações, surge em 1983 a primeira planta com genes de outras espécies. Onze anos depois a ciência daria a conhecer o primeiro tomate transgénico.
Apesar de não ser um método consensualmente aceite, a manipulação genética dos alimentos trouxe benefícios a que muitos países não quiseram ficar alheios. Exemplo disso são os EUA, o Canadá e a China onde, em 1995, eram já comercializados diversos tipos de plantas transgénicas. Apenas dois anos mais tarde, foi a vez da União Europeia (UE) abrir as suas portas à comercialização de tomate, soja e milho geneticamente alterados.
As características de qualquer ser vivo são determinadas pelos genes contidos nos cromossomas das suas células. Durante a produção de um alimento transgénico procede–se à introdução de genes pertencentes a outras espécies que lhe conferem propriedades específicas. Moléculas de ácidos nucleicos são inseridas em vírus ou bactérias, que servem de intermediários para a obtenção do material genético que é posteriormente inserido no organismo que se pretende modificar. É também empregue a técnica de fusão celular, pela qual duas ou mais células são unidas de modo a conseguir novas combinações.
Actualmente, é possível criar espécies resistentes a determinados vírus, pragas, herbicidas ou condições climatéricas adversas. É o exemplo, do curioso caso dos morangos a cujo ADN se adicionou um gene de um peixe do Árctico, de forma a que se tornassem mais resistentes ao frio.
Encontram–se actualmente no mercado alimentos nos quais a intervenção genética se efectua a níveis distintos. Aos que são integralmente um OGM - é o caso da soja e do milho - opõem–se os que apenas incluem na sua composição elementos geneticamente alterados, como o pão produzido com fermento transgénico.
A possibilidade de pôr termo à carência alimentar que afecta mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo apresenta–se como o argumento mais aliciante para que se invista na generalização da agricultura transgénica. Muitos são também aqueles que vêem neste método uma oportunidade de aumentar a produtividade e reduzir os custos.
No extremo oposto estão opiniões mais cépticas de ambientalistas, grupos ecologistas e todos aqueles para quem a manipulação genética de produtos alimentares traz, para além das incontornáveis questões éticas, graves problemas ao nível da saúde pública e do impacto ambiental.
A resistência a antibióticos encabeça a lista dos problemas associados ao consumo de OGM’s. Para que se verifique se a implatação de um determinado gene foi bem sucedida é necessário que este seja acompanhado por um gene marcador. Este é, geralmente, resistente a um antibiótico. Uma vez que a transferência genética se faz por intermédio de vírus ou bactérias, dá–se muitas vezes origem a uma estirpe contra a qual o antibiótico perde parte da sua eficácia e que se pode tornar patogénica para o ser humano.
De igual modo, as alergias emergem como um potencial risco para aqueles que incluem os alimentos transgénicos na sua dieta. A criação de OGM’s pode levar ao aparecimento de novas substâncias provocadoras de alergias ou à sua transferência de um alimento para outro. Como tal, e dada a deficiente ou inexistente rotulagem da maioria dos produtos, os consumidores mais incautos poderão ingerir uma substância a que são alérgicos sem disso terem conhecimento.
Por fim, o consumo de transgénicos acarreta ainda a possibilidade de intoxicação inesperada, quer pela presença de novas toxinas, quer pelo aumento do nível das já existentes.
A agricultura transgénica constitui ainda uma ameaça à biodiversidade. Dada a maior capacidade das culturas geneticamente alteradas de sobreviverem em condições hostis, estas podem sobrepor–se às culturas tradicionais levando à sua extinção. É também possível que ocorra o cruzamento não controlado entre espécies modificadas e naturais, dando origem a variedades com características imprevistas.
A agricultura transgénica é, ainda, uma forte ameaça às economias dos países de terceiro mundo. Produtos como o cacau ou a cana de açúcar, que constituem uma parte considerável das suas exportações, poderão vir a ser substituídos pelos seus congéneres transgénicos produzidos nos EUA ou na Europa.

Referências:
A Cabra, Jornal Universitário de Coimbra, Maio 2002

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Inserido em: 2002.06.13 Última actualização: 1999.11.29

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