
Entrevista a Irene Franco, mãe de uma criança vegana
Irene Franco é vegana e mãe de Lara Franco Neves, uma menina com 2 anos e 10 meses de idade (em Dezembro de 2005). Irene era ovo-lacto-vegetariano quando engravidou de Lara e manteve esse regime durante os primeiros meses de vida da filha. Ao descobrir a origem dos ovos e do leite tornou-se vegana, juntamente com o seu marido, e adoptou o mesmo regime alimentar para a sua filha.
HÁBITOS DA MÃE DURANTE A GRAVIDEZ
1- Durante a gravidez que tipo de alimentação fizeste?
Irene: Ovo-lacto-vegetariana.
2- Houve alguma alteração em relação ao que costumas comer normalmente?
Irene: Não houve alteração em relação ao regime ovo-lacto-vegetariano que seguia na altura.
3- Tomaste algum tipo de suplementos (como por exemplo B12)?
Irene: Sim, os que tomam todas as grávidas: ácido fólico desde o início e ferro a partir dos 6 meses, mas de marcas para veganos.
4- Tiveste alguns cuidados especiais de saúde durante esse período?
Irene: Sim. Aboli o álcool e o café. Continuei com o Yoga e fiz hidroginástica.
5- Estiveste doente ou tiveste problemas de enjoo matinal ou de outro tipo?
Irene: Nunca estive doente, mas enjoei bastante nos primeiros dois meses. Depois fiquei óptima.
6- Foste a algum médico?
Irene: Sim, às consultas de rotina das grávidas.
7- Tomaste algum medicamento? Que tipo e para quê?
Irene: Não. Não necessitei.
8- Informaste-te em algum lado sobre que cuidados extras ou alterações de dieta deverias ter? Onde?
Irene: Provavelmente sim, mas não me recordo onde.
ALIMENTAÇÃO DO BEBÉ
1- A criança sempre seguiu uma alimentação vegana?
Irene: Não. Seguiu sempre o regime dos pais. Primeiro ovo-lacto-vegetariano e depois vegano.
2- Quais os maiores obstáculos que encontraste ao teres optado por uma alimentação vegana para a tua filha?
Irene: Comer em restaurantes e em eventos sociais, mas hoje já é fácil.
3- Deste só o teu leite ao bebé, ou de algum outro tipo? Qual? Normal ou havia específico para bebés?
Irene: Amamentei o máximo que consegui, que foi até aos 8 meses. Num curto período bebeu leite de crescimento de vaca alternado com “leite” de crescimento de soja e depois bebida de aveia, arroz e amêndoa.
4- Com que idade começou a comer outro tipo de comida? Que género de coisas? Como foi feita a transição?
Irene: Começou a diversificação alimentar aos 6 meses, quando demonstrou interesse por sólidos. Começou pelas sopas de legumes, papas de cereais e purés de fruta. Fui introduzindo os alimentos de forma progressiva (primeiro apenas uma refeição “sólida” por dia, depois duas…). Procurei sempre providenciar à Lara uma alimentação o mais diversificada possível.
5- Houve alguma oposição por parte da família ou dos médicos pelo facto de dares uma alimentação vegana à criança? Quais as reacções e como lidaste com isso?
Irene: Sim, a pediatra que a seguia na altura inicialmente disse que era impensável mas quando sentiu os pais tão seguros e informados e vendo o excelente desenvolvimento psico-motor da Lara nunca mais disse nada. Acho que ela própria aprendeu qualquer coisa. Com a família o processo foi idêntico. A saúde da Lara fala por si.
PRODUTOS VEGANOS E SAÚDE
1- Foi difícil encontrar produtos para bébé/crianças veganas (fraldas, leite, papas, pomadas, champô, etc)?
Irene: Não, o pior são os preços…
2- A tua filha tomou as vacinas? Qual foi a solução que encontraste em relação a este assunto, por vezes tão polémico e controverso?
Irene: Sim, tomou. Hoje teria feito diferente mas na altura não dispunha de informação que me permitisse estar segura em relação à decisão de não dar vacinas.
3- A criança já esteve doente? Com o quê? Como o curaste?
Irene: Até agora só teve duas constipações com alguma febre. Curou-se com repouso, banhos de água tépida, alimentação sem proteínas e à base de sumos. Utilizámos medicação homeopática (já com uma nova médica).
4- Que tipo de medicamentos geralmente a criança toma: naturais ou químicos? Porquê?
Irene: Em geral não toma nenhum medicamento.
5- Em relação à vitamina B12 tens alguma atenção especial? Qual/quais?
Irene: Sim. Toma B12 em forma sublingual (vegana) e incluímos em alguns pratos flocos de levedura [de cerveja] enriquecida com B12.
6- Em relação a outros nutrientes há mais algum que te preocupe em particular? Porquê e que soluções encontras?
Irene: Não. Desde que mantenha uma alimentação variada e equilibrada (à base de cereais, legumes, nozes, leguminosas, frutos e soja em quantidade moderada) terá os nutrientes de que necessita.
A CRIANÇA NA SOCIEDADE
1- Os pais falam à criança sobre os princípios éticos do veganismo? Como? Como vê a criança a forma como outras pessoas se alimentam ou a sua relação em geral com os animais?
Irene: Sim. Estimulamos o respeito pelos animais e pela natureza e uma responsabilidade ecológica. Dizemos-lhe que gostamos dos animais vivos e em liberdade, pois presos ficam tristes. Apontamos a importância da reciclagem, de poupar água…. A Lara já reparou que os avós comem carne e peixe e nós não. Tentamos transmitir-lhe que há pessoas que comem animais e outras não mas sem fazer julgamentos.
2- Na escola, que dificuldades a criança encontrou na relação com colegas e professores?
Irene: Não se aplica. A Lara está numa escola onde a alimentação base é ovo-lacto-vegetariana mas pode ser vegana para as crianças que não comam ovos ou lacticínios.
3- Como fazes quando a tua filha é convidado para festas, por exemplo aniversários de outras crianças, onde praticamente toda a comida não é vegana?
Irene: Dada a sua idade ainda não aconteceu mas nessa ocasião especial, para que não se sinta tão diferente dos outros, poderá comer alimentos que tenham algum ingrediente de origem animal, mas carne e peixe não.
4- A criança alguma vez tentou rejeitar o veganismo? Porquê?
Irene: Não, nunca aconteceu.
5- A criança alguma vez pediu algo, por influência da publicidade, da televisão, das outras crianças, que seja contra a filosofia do veganismo (por exemplo: gelado de leite, comer hamburguer no MacDonnalds, produto que é testado em animais, etc.)? Como reagiste e solucionaste esse(s) pedido(s)?
Irene: Sim. Uma vez viu uma criança a comer um gelado e também quis. Oferecemos-lhe uma alternativa vegana e ela ficou satisfeita.
6- Consideras a tua filha é uma criança saudável e bem integrada no meio que o envolve? O veganismo dificultou ou favoreceu isso de alguma forma?
Irene: Sim, é uma criança muito saudável e bem integrada. Acho que o veganismo contribuiu positivamente para a sua saúde, mas prevejo que lhe venha a colocar algumas dificuldades a nível social.
7- Consideras que a tua filha, por ser vegana, é uma criança diferente daquela que seria se fosse omnívora? Em que aspectos e porquê?
Irene: Sim. Estou convicta de que goza de uma melhor saúde e que irá crescer mais consciente da sua responsabilidade em relação a todo o meio envolvente.
8- Que sugestões e conselhos darias a pais ou futuros pais veganos?
Irene: - Que procurem encontrar um equilíbrio entre os seus princípios éticos e a necessidade de integração social da criança. - Agir com coerência mas não com inflexibilidade.
- Ajudá-la a desenvolver a auto-confiança para que crie uma estrutura interna capaz de contornar eventuais dificuldades de integração.
- Não lhe incutir sentimentos de superioridade moral e/ou desprezo por outras formas de estar na vida, ainda que muito diferentes das nossas – Estimulá-la a agir com base no amor.
O Centro Vegetariano agradece a amabilidade de Irene Franco que gentilmente nos concedeu esta entrevista.Inserido em: 2005.12.04
Última actualização: 2007.05.27
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Comentários
parabéns
queria dar os parabéns à Irene!(Por: teresa)
2005.10.10 - 24:00
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