Hominídeos vegetarianos

Desenvolvimento dos primeiros primatas


Há cerca de 60 milhões de anos desenvolveram‑se os primeiros primatas*, mamíferos dos quais todos descendemos, e com eles partilhamos muitas das capacidades que hoje possuímos. A evolução da garra para a mão foi muito importante do ponto de vista da capacidade de utilização de objectos como ferramentas (nomeadamente pedras e paus), ao mesmo tempo que a localização dos olhos nas zonas laterais do rosto ia sendo gradualmente substituída pela zona frontal, o que possibilitou que a nossa visão se tornasse estereoscópica, ou seja, que passássemos a ver em relevo as imagens planas. A sobreposição dos campos visuais daí resultante deu origem à visão em profundidade, vital para a identificação de predadores à distância.

A flexibilidade e a adaptação às condições em constante mutação são duas das condições para que uma espécie sobreviva, seja bem‑sucedida e saiba aproveitar as vantagens do inesperado. Todos os seres vivos que dependam de um habitat específico para sobreviverem estão condenados à extinção se esse habitat for destruído. A chave do sucesso não está só na flexibilidade mas também na inconstância, a arte de confundir os predadores. O lémur, um dos nossos primeiros antecessores primatas cujo habitat tem permanecido quase inalterado desde há 60 milhões de anos, permanecia nas árvores a maior parte do tempo e a sua dieta consistia em folhas, frutos secos de casca dura, bagas, frutas e caules comestíveis.
Vinte milhões de anos depois dos os lémures, chegaram os antropóides, primatas mais evoluídos que incluem os macacos, os símios e os humanos— outro grupo de vegetarianos. Há 5 a 25 milhões de anos atrás este grupo diversificava e colonizava África, a Eurásia e as Américas tropicais usando as pontes naturais entre continentes que existiam na época. Certamente percorreram grandes distâncias, de climas frios a moderados e quentes e pensa‑se que os climas nórdicos mais frios ajudaram ao desenvolvimento dos antropóides, levando‑os a consumirem mais cascas de árvores, câmbio vascular (mucilagem que cresce no interior da casca das árvores rica em proteínas e hidratos de carbono) e folhas de plantas perenes. Eram todos vegetarianos, mas a dieta começava a ser mais sortida com a crescente variedade de alimentos e sabemos que diversidade em abundância significa mais inteligência.
Há cerca de 18 milhões de anos surgiram os hominídeos**, símios sem cauda e com cérebros e corpos maiores do que os dos macacos que se desenvolveram em África; do grupo fazia parte um símio denominado Proconsul, por vezes chamado “o papá de todos nós”. Pensa‑se que partilhamos este antecessor com o gorila, outro famoso vegetariano e estudos de ADN demonstram a nossa relação próxima com o gorila e o chimpanzé e que descendemos de um antecessor comum com cerca de 5 a 6 milhões de anos. Através do estudo de maxilares fossilizados, sabemos que estes primatas eram herbívoros e que se alimentavam de frutos secos de casca dura, bagas, fruta e câmbio vascular (conhecido hoje em dia como olmo e consumido por alguns de nós como suplemento alimentar na convalescença). Com pequenas idas ao solo, conseguir‑se‑iam ainda facilmente sementes, caules, bolbos, raízes e até líquenes em pedras húmidas e algas dos lagos, uma mistura é vital para o desenvolvimento do sistema nervoso.
Alguns críticos defendem que os nossos antecessores primatas não seriam completamente herbívoros pois comeriam insectos e até caçariam mamíferos bebés ou pequenos macacos, tal como hoje fazem em liberdade. Talvez fosse verdade, mas a quantidade não foi suficiente para provocar mudanças na dentição: os dentes caninos são pequenos e os molares apresentam uma superfície ampla de moagem com uma camada espessa de esmalte, o que faz dos seus maxilares um poderoso instrumento de esmagar, moer e mastigar, destinado a lidar com vegetação. O seu gosto por insectos não os levou a experimentar outras pequenas criaturas, tais como sapos e lagartos.
Quanto à caça ao pequeno macaco colobo*** ou a crias de javali, tal como se vê em documentários de David Attenborough, esta pesquisa iniciou‑se com Jane Goodall: o seu grupo de chimpanzés foi observado durante um período de tempo que permitiu aferir dos números exactos de quantidade de carne consumida e de animais mortos. Num período de 10 anos, os cerca de 50 chimpanzés mataram e comeram cerca de 95 mamíferos pequenos: crias de javali, de gazela‑pintada (também denominado antílope‑pongo ou golungo) e de babuínos com pesos de cerca de 4,5 kg cada, o que dá uma média diária de 2,4 gramas— o peso aproximado de uma ervilha— por indivíduo. Além disso, as pequenas vítimas foram encontradas acidentalmente sem haver planos para caçar nem matar.
De todos os primatas vivos, os humanos são os únicos que comem animais de grande porte, sendo quase todos os restantes herbívoros. A nossa origem está nesta mistura genética de grandes grupos de criaturas pacíficas e amigáveis que subsistem alimentando‑se de ervas, folhas, frutos secos de casca dura, bagas, raízes e frutas. Não há dúvida que o nosso metabolismo construído ao longo de vários milhões de anos se sustém melhor por uma dieta vegana e só depois vegetariana, por esta ordem.
Há 3 milhões e meio de anos surgiu o Australopithecus Afarensis, apelidado Lucy. Era de estatura pequena, deambulava pela planície africana e pela floresta, vivia perto da água e era também herbívoro. Existiam vários tipos de Australopithecus, incluindo o Robustos, estigmatizado como assassino e como fonte dos nossos instintos agressivos, mas na realidade também ele era vegetariano, usando apenas ossos de mamíferos para desenterrar raízes e bolbos; a descoberta destes ossos ao lado dos do próprio primata, levou os antropólogos a pensar que tinham encontrado o primeiro caçador: enganaram‑se por um milhão de anos.


Notas:
* http://pt.wikipedia.org/wiki/Primatas
** //pt.wikipedia.org/wiki/Homin%C3%ADdeo
*** Cercopiteco endémico das florestas da África Equatorial


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Texto de autoria de Colin Spencer.
Colin Spencer é romancista, dramaturgo, autor de livros de culinária e tem uma coluna acerca de alimentação no jornal The Guardian.
O seu livro mais recente, The Heretic`s Feast – a History of Vegetarianism, com abundante pesquisa, apresenta uma perspectiva pormenorizada do vegetarianismo ao longo dos tempos. É também autor de muitos best‑sellers de culinária, tais como Cordon Vert e The New Vegetarian.


Referência:
http://www.viva.org.uk/guides/fruitsofthepast.htm
Traduzido e adaptado de Fruits of the Past publicado pelo Viva!, grupo vegetariano do Reino Unido — http://www.viva.org.uk



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Inserido em: 2006.02.25 Última actualização: 2010.03.05

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