Alimentar o Mundo no Século XXI: solução passa pelo veganismo

A Organização para Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) estima que cerca de 840 milhões de pessoas – cerca de 4% da população mundial - se encontrem em estado de subnutrição e que uma média diária de cerca de 25 000 pessoas morra de causas relacionadas com a nutrição. Neste contexto, dadas as previsões de um crescimento populacional mundial de 6 biliões para 9 biliões até ao ano 2050, urge questionar o modo como nós, humanos, nos poderemos alimentar no século XXI.


Uma das principais limitações na produção de alimento relaciona-se com a disponibilidade de terra agrícola viável. Saliente-se que presentemente o problema não consiste na escassez de alimentos, uma vez que dispomos de produção alimentar suficiente para satisfazer as necessidades nutricionais de uma população global de 8 a 10 biliões de pessoas, mas na sua difícil acessibilidade. As razões que explicam tal facto prendem-se, não raras vezes, com situações de pobreza ou de guerra. Não obstante, o estilo de vida ocidental, e a sua dieta alimentar em particular, podem, em grande medida, contribuir para privar as populações mais carenciadas de alimentos a nível mundial.
A produção mundial de gado excede anualmente os 21 biliões de animais, sendo essa população animal três vezes e meia superior à população humana.
A criação de gado implica a utilização de mais de 2/3 de terra agrícola e de 1/3 de área total de terra, o que apresenta aparentemente justificável pelo facto de consumindo os alimentos que os humanos não conseguem digerir e processando-os em carne, leite ou ovos, os animais de criação nos fornecerem uma fonte alimentação necessária.
Contudo, na realidade, o gado está a ser constantemente alimentado com grãos e cereais que podem ser directamente consumidos por humanos ou que são cultivados em terra passível de ser usada para o cultivo de outros alimentos.
Se atentarmos aos dados apresentados pela Vegan Society, constatamos que, em 1900, apenas 10% dos cereais cultivados a nível mundial eram destinados a consumo animal; em 1950, eram já cerca de 20%; e em finais da década de 90, os números rondavam os 45%. Actualmente, estima-se que cerca de 60% do cereal norte-americano seja destinado à alimentação de gado.
Acrescente-se o facto de a produção de carne e outros produtos diários constituir um uso notoriamente insuficiente de energia. Todos os animais utilizam a energia que obtém dos alimentos para se movimentarem, manterem a temperatura corporal e desempenharem outras funções diárias. Todavia, só uma percentagem da energia obtida pelos animais de criação através do consumo de alimentos vegetais é depois convertida em carne e produtos diários.
A este respeito, num recente estudo, o Professor Vaclav Smil da Universidade de Manitoba, no Canadá, calculou que os bovinos de criação convertem apenas 2,5% da energia que consumem em alimentos para consumo humano.
Esta eficiência pode ser igualmente mensurável em termos da terra requerida por caloria de alimento obtido. Quando Gerbens-Leenes et al. examinaram o uso da terra para cultivo na Holanda, descobriram que, por oposição aos vegetais, a carne necessitava da maior quantidade de terra por kg.

Alimentos

Terra por kg (m2)

Calorias por kg

Terra por pessoa/por ano (m2)

Carne de vaca

20.9

2800

8173

Carne de porco

8.9

3760

2592

Ovos

3.5

1600

2395

Leite

1.2

640

2053

Frutos

0.5

400

1369

Vegetais

0.3

250

1314

Batatas

0.2

800

274


Com base nestes dados, para responder às necessidades de uma dieta vegana variada seriam necessários cerca de 700 m2 de terra. Substituir 1/3 das calorias desta dieta por leite e ovos iria duplicar a quantidade de terra necessária. Em termos comparativos com uma dieta vegana variada, uma típica dieta omnívora europeia requeriria 5 vezes mais terra.
A maior parte da terra desperdiçada no cultivo de alimento para a criação de gado situa-se nos países ditos em via de desenvolvimento, onde a comida mais escasseia. A Europa, por exemplo, importa 70% da sua proteína para alimentação de gado. Esta situação contribui para o desenvolvimento da má nutrição a nível mundial ao impelir as populações empobrecidas a lucrarem com o cultivo de produtos destinados à alimentação animal, em vez de cultivarem produtos para a sua própria alimentação.
Acrescente-se ainda o facto de a monocultura intensiva conduzir à deterioração dos solos em termos de valor nutricional e, desta forma, permitir que populações economicamente vulneráveis se afastem dos ditos sistemas de agricultura sustentável.
A nível mundial, a criação de gado implica a utilização de cerca de 3,4 biliões de hectares de terra para cultivo, dado que grande parte da criação de gado mundial é ainda efectuada em pastagens. Os defensores da agricultura animal advogam que a maioria da terra para pasto é inadequada para o cultivo de cereais destinados à alimentação do Homem, acrescentando que, ao se converter erva e outras plantas indigestíveis para os humanos, em energia e proteína para o seu consumo, a criação de gado providencia uma mais-valia para os nossos recursos alimentares.
Na realidade, a terra actualmente utilizada para a criação de gado é, quase na sua totalidade, indicada para o cultivo de árvores. Utilizá-la antes para este cultivo permitira não só um uso eficiente da terra e a obtenção produtos vegetais, como traria igualmente muitos benefícios ambientais.
Em suma, enquanto 840 milhões de pessoas não possuem alimentos suficientes, continua-se a desperdiçar 2/3 de terra agrícola para obter apenas uma pequena fracção do seu potencial valor calórico. Parece assim claro que não possuímos terra suficiente para alimentar toda a gente com base numa dieta carnívora.
Parafraseando D. T. Avery, director do Centre for Global Food Issues, “o mundo terá de criar cinco biliões de veganos nas próximas décadas, ou triplicar o output da sua quinta global sem utilizar mais terra.” Assim sendo, perante a evidência do pleno crescimento da população mundial e da redução de terra agrícola viável, urge encontrar formas sustentáveis para a utilização dos nossos recursos naturais.

 



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Inserido em: 2006.04.22 Última actualização: 2014.04.20

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