Ciclista Ilda Pereira Ciclista Ilda Pereira

Entrevista à atleta vegetariana Ilda Pereira

Ilda Pereira, Vice-Campeã Nacional de XCO em 2013, desde 1999 que segue uma alimentação vegetariana. Atualmente representa Portugal na Seleção Nacional de Ciclismo.

O Centro Vegetariano foi ao seu encontro, tentar saber mais sobre a sua opção alimentar e a carreira da ciclista.

 

- Quando e porque se tornou vegetariana?

IP – Não há uma data a assinalar esta forma de estar: surgiu de uma forma “exploratória” mas intencional.

Apesar de vir de uma família cuja gastronomia é a tradicional, ainda que com muitos cuidados na escolha de ingredientes saudáveis e preparação dos alimentos, o consumo de carne representou, desde a puberdade / adolescência, problemas ao nível do bem-estar (digestões difíceis e demoradas, por exemplo).

Desde criança que observei as escolhas da minha avó que ainda hoje pratica uma “dieta naturalista” e, foi em 1999, quando ingressei na Universidade, em Braga, e tive contacto com uma oferta (a nível de informação bibliográfica, restauração, lojas, centros…) que começava a dar resposta a alguns dos meus ideais, que optei pelo vegetarianismo.

Como foi sempre uma questão de “exploração”, de procurar uma forma de me alimentar que respondesse às minhas questões, à minha vontade de me sentir bem física e integralmente, de contribuir para uma optimização dos recursos, de me integrar no ecossistema de forma racional e sustentada, já passei por várias “formas de vegetarianismo” e mantenho esse eclectismo. Certo é tanto que nunca serei fundamentalista assim como manterei uma dieta “meat free”.


- Tem alguns cuidados especiais com a sua alimentação e saúde?

IP – (Risos)

Em tudo o que faço procuro ser muito perfecionista. Posso não controlar totalmente os aspectos associados à saúde, mas tenho plena consciência de que quanto melhor me alimentar mais probabilidade de uma melhor saúde terei – o que é de extrema importância para o ciclismo. Tal como referi anteriormente, foi sobretudo a partir de 1999 que passei a dar mais atenção à diversidade de dietas disponíveis e foi aí que optei pelo vegetarianismo – primeiro de uma forma mais experimental e naïf, depois, mais informada, cheguei ao Veganismo. É importante estarmos informados para nos formarmos e, como disse numa entrevista realizada pelos meus parceiros Efeito Verde, desenvolvi uma biblioteca “ sobre o tema (desde as receitas até à composição dos alimentos e seus efeitos) e quando comecei a competir, foi como se todo o caminho tivesse estado sempre a apontar para “aqui”: horários, origem dos alimentos, combinação de alimentos, variedade, alimentos ricos em determinados constituintes e sem aditivos, alimentos naturais que mantêm a sua riqueza original, etc…”

 

ciclista Ilda Pereira- Em que medida é que a sua alimentação afeta a sua carreira desportiva?

IP – As duas não só estão interligadas como são indissociáveis. Como disse, têm sido muitas as experiências, vária a investigação para dar resposta às necessidades que, em grande parte, derivaram da prática desportiva. A minha alimentação é um elemento de uma engrenagem com vista a uma melhor qualidade de vida – e a minha qualidade de vida é o ciclismo! Tudo o que como faz parte de uma selecção meticulosa e cuidada de produtos de confiança que correspondem às minhas necessidades.

É muito importante sabermos o que estamos a ingerir. Hoje em dia, com a disposição de informação sobre a composição nutricional dos alimentos, posso compor as refeições com os constituintes que optimizam o treino, que contribuem para a recuperação, que evitam estados degenerativos de uma forma natural, evitando químicos (comprimidos, suplementos, etc).


- Desde que se tornou vegetariana, notou algumas melhorias na saúde, energia e disposição?

IP – Claro que sim! Caso contrário, não haveria sentido algum em manter um plano alimentar que não me fizesse sentir bem!

Assim que deixei de comer carne, passei a sentir-me melhor quanto às digestões: menos “enfadada”, menos inchada, pesada…

Depois, também dentro do vegetarianismo, experimentei sensações menos boas e fui aprendendo a educar o organismo, a integrar os alimentos e combiná-los de forma mais produtiva. Foi a partir daí, talvez de há uns três anos para cá, o que acaba por coincidir com a opção de me dedicar de forma “séria” ao ciclismo, que notei mais os benefícios do “vegetarianismo”.

Nunca tive quaisquer problemas como anemias (o que é “common sense” associar-se aos vegetarianos), “sinto-me “energizada”, quer a nível desportivo quer profissional”(especialmente com os superalimentos da Efeito Verde) e, quando tenho a perceção de que a disposição possa acusar algum desgaste, sei que alimentos devo procurar.

 

- A sua opção alimentar desperta curiosidade entre os seus colegas? Que reacções obtém? Houve algum episódio engraçado que possa contar?

IP- Desperta curiosidade. Diria que desperta uma curiosidade tão grande quanto carregada de mitos! A “carne” ocupa um espaço enorme na construção do indivíduo ocidental. O nosso país não foge à regra e a tradição estira a ideia de que somos “carne”!

Ou seja, a primeira questão vem sempre carregada de uma admiração exclamativa: “Tu não comes carne?!”. Depois segue-se o enfático “Nunca?!”. Termina com um indício reflexivo “E andas assim de bicicleta?” É aqui que mostram que querem perceber. Tenho todo o gosto em explicar-lhes como cheguei ao vegetarianismo: o que representa para mim, o que acarreta (as dificuldades que sinto, os cuidados que tenho, etc)… Não há nada que esconda: aspetos positivos e negativos.

Quanto aos mais próximos, gosto de levá-los ao meu restaurante vegetariano de eleição, pois sei que ficarão bem impressionados e isso facilitará o processo de, sem pretender que me “copiem”, passem a, numa ou noutra refeição, fazer escolhas mais conscientes que os ajudarão a ter uma melhor saúde e respectiva qualidade de vida.

Episódios engraçados? Não faltam e estou certa de que continuarão a surgir, apesar de toda a informação que já circula e que agora está mais facilitada, à distância de um clique, na Internet. “Não comes carne mas comes salsichas, certo?”, “Queres uma omelete com queijo e fiambre?”, “Ok! Reservamos o restaurante e para ti pedimos uma salada mista. Está bem?” … Mas um dos episódios mais caricatos foi aquele em que a minha mãe, já compreensiva desta escolha, leva, num almoço festivo, dois hambúrgueres de seitan e cogumelos para o restaurante e pede ao cozinheiro para me preparar o prato. Quando mo servem, logo pelo cheiro e pela cor, apercebo-me de que não são “os hambúrgueres” que ela trouxera. Coloco a questão ao chefe de mesas que me garante que são. Paciente, dou a provar… Claro está que, o cozinheiro, achando que “hambúrgueres” não são carne, tinha cozinhado uns de perú sem se aperceber que houvesse, de facto, uma significativa diferença de atitude (ideológica e de saúde)! Caricato é também quando confeccionam o prato tradicional e aguardam que aparte a carne porque, no meu caso, a questão não é “bélica”, não é um “antagonismo” carne VS vegetarianismo: a questão está em comer bem e um prato que foi preparado daquela forma tem aqueles constituintes “associados” entre si – é um contágio!

 

- Em Portugal, é fácil ser uma atleta vegetariana? Já encontrou alguns obstáculos à sua alimentação?

IP – Em Portugal não é fácil ser atleta. Em Portugal (ainda) não é fácil ser vegetariana. Combinar as duas premissas é aceitar um desafio! O meu dia a dia é vivido em excesso de velocidade. Às vezes, é difícil ter os produtos que gostaria – seitan, tofu, tempeh e derivados. Essa tem sido uma saga, encontrar uma parceria que, à distância de um clique, me possibilite aceder-lhes.

Contudo, o certo é que as duas variáveis – desporto e vegetarianismo - funcionam muito bem, como já disse anteriormente! A alimentação vegetariana, se bem praticada, é muito variada e rica! Os nutrientes (macro e micro) presentes nos alimentos, se bem seleccionados, fornecem a energia necessária e aceleram a recuperação muscular.

Os hidratos de carbono são, para nós, muito importantes. “Devem compor de 50 a 65% da dieta, pois cada 1g de carboidrato fornece quatro calorias às células do corpo, enquanto que 1g de gordura fornece nove calorias.” Eles estão presentes na maioria dos alimentos: beringela, folhosos, espargos, palmito, abóbora, abobrinha, beterraba, cenoura, chuchu, vagem, quiabo, batata, aipim, inhame, frutas, feijão, lentilha, ervilhas, favas, grão de bico, milho, arroz, farinha, aveia, massa, pão – fibras (estes não refinados), etc. Estou convencida de que o segredo está na diversidade!

Claro que já encontrei obstáculos, ora por estar em viagem, fora de casa, e não encontrar os produtos que sei que devo de consumir (como é o caso do pão, em que muitas vezes só está à disposição o “tradicional pão branco”), ora por alguma carência / necessidade específica da prática desportiva que me leva a, sem pôr em causa os meus ideais, sem fundamentalismo, integrar alimentos que fazem parte dos “vários tipos vegetarianos” – mas sempre “meat free”! Sobretudo as corredoras, que têm uma composição corporal específica e diferente da de um homem, têm de ter especial atenção a questões como as fontes de proteína, o ferro, o potássio, zinco, entre outras!


- Gosta de cozinhar? Quais são as suas especialidades?

IP – Adoro cozinhar! É uma arte, uma ciência… Acho que não tenho um prato que seja a minha especialidade… (risos)

Gosto de preparar as refeições: a perfeição da trindade! Em todas elas há 3 “constituintes” principais…

Pratos italianos combinados com gastronomia oriental confeccionados com produtos da nossa terra são, talvez, a minha especialidade! As pastas acompanhadas com legumes no Wook servidos com seitan!


- Qual a sua relação com os animais? Tem ou já teve algum animal doméstico?

IP – Ora aí está uma pergunta original. Neste momento, ultrapassada por volta do ano de 2014/5 a fobia a aranhas, relaciono-me bem com qualquer animal. É verdade! Quem está comigo sabe que reajo àquele “instintivo” matar de uma melga, formiga… seja o que for. Mas não foi por teoria, por ler nos livros, por saber que há correntes filosóficas que defendem o igual direito à vida dos animais como das pessoas. Não. Simplesmente fui desenvolvendo esta atitude. Hoje, compreendo a importância de todos os bichos – claro que há uns de que gosto mais do que outros, e uns que ainda me causam uma certa repulsa, mas não admito o “suicídio”.

Sempre tive animais domésticos e cresci, como muitas crianças, com o cão, o gato, as galinhas, o passarinho… Hoje sou incapaz de ter um pássaro preso numa gaiola: é a perfeita metáfora da limitação de liberdade!

Neste momento tenho “dois artistas”, o Pincel e o Guache, dois gatinhos, irmãos, que partilham casa comigo e com o meu marido há 3 anos…

 

- Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos leitores?

IP – Antes de mais, gostaria de agradecer o interesse em divulgar a minha atividade, divulgando simultaneamente o ciclismo feminino, e mostrar que a alimentação não só é essencial para o desempenho do atleta como «é possível ser atleta sem comer carne».

Para terminar, vão permitir-me que siga a mensagem deixada aos amigos da Efeito Verde: «Numa das suas célebres frases, Albert Einstein, reconhecido vegetariano, afirmou que “Nada beneficiará mais a saúde da humanidade e aumentará as hipóteses de sobrevivência da vida na Terra quanto a dieta vegetariana.” Estou em crer que falava de uma “saúde física e mental” e de uma “sobrevivência com alegria”. A escolha pela dieta vegetariana é um compromisso com o próprio e com o futuro! Faça uma Escolha Saudável!»

 

O Centro Vegetariano agradece  à atleta Ilda Pereira a disponibilidade.




Copyright Centro Vegetariano. Reprodução permitida desde que indicando o endereço: http://www.centrovegetariano.org/Article-605-Entrevista-a-ciclista-vegetariana.html

Inserido em: 2014.09.28 Última actualização: 2014.09.28

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