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Categoria: Poemas
Tudo o que é poesia...



Artigos (168)



A meu lado corre um rio...

A meu lado corre um rio
calmo e transparente.
E que confusão dentro de mim!...



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Estou (aí) aqui

Estou aqui
mas penso em ti,
aí.



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Distante por instantes

Caminhavas a meu lado.
Distraí-me a olhar as estrelas.
E por uns instantes
não te vi mais.



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Eu + tu = nós

Queria fazer de ti
meu confidente
desnudar-me até à alma
de todas as partículas
que constituem o “eu”.



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Fome da minha fome

Fome da minha fome,
sede da minha sede,
grito que no meu ecoa,
alma que sonhei,
ou vi.
 
És tu, senhora, a razão de tudo existir.
E mesmo morrendo,
és tu ainda o motivo.



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Talvez...


Talvez tenha sido
Uma ilusão
Um capricho meu.



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Um dia...ela esqueceu-se

Uns dias avançaram...
e do teu olhar
ela se esqueceu.



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Ao meu Portugal

Triste o destino de um País.
Que não tem filhos e perdeu os pais.
E que ao jugo de negros destinos.
Já não canta seus hinos.
Ao seguir os gritos de igualdade.
Que somente fecundaram deslealdade
E um fosso abissal, entre a Nação e os políticos.
Que sem quaisquer preceitos éticos.
Criaram em Portugal abismal fosso de desigualdade.
Num viver sem política nacionalidade.



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Um momento

Palavras doces
em lábios que tremem.
Olhos que piscam
raios de luz.



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Carnivorismo

Quando o leitão grita e o rato geme,
em nós uma paliçada de ferro
se ergue e nos mantém distantes do berro
de quem sente a revolta, um Deus sem leme.



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O meu bebé coelhinho


A roseira floresce o perfumado
Matiz do coração, a ternura simples
E ingénua aconchegando olhares,
Fofo pelo de um anjo recém-nado.



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Porquê eu?

Um leitãozinho nasceu... com um olhar inocente
Observa a criança humana que acarinhada
Por sua mãe é testemunha ingénua, levada
No oiro ariano a sorrir ao que não sente.


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Um poema


Se homens com carne mortal precisam ser alimentados,
E mastigar com dentes sangrentos o pão que respira;



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Queria eu...

Queria eu
ser pintor
e oferecer-te uma tela.
Ser estrela
e iluminar-te.



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Um poema...

Um poema
Uma lágrima
Uma emoção
condensada.



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Ser poeta é...

Ser poeta é
transformar o mundo
num lugar mágico e misterioso,
repleto de segredos e tesouros.



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Reverência do Destino


Falar é completamente fácil,
quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes
o que realmente queremos dizer,
o quanto queremos dizer,
antes que a pessoa se vá.



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Numa noite fria

Noite fria.
Sorrisos quentes.
Pensamentos distantes
num verde imenso.



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Recusar sentir

Um sentimento
não sei se o quero.
Uma lágrima
recuso-a.
Um sorriso
desconfio dele.



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Talvez cansaço...

Todos têm sorrisos,
só eu nenhum.
Todos festejam
alguma coisa.
Só eu não sei
que há para festejar.



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Degrau a degrau...

Olhei para trás
não sei o que vi.
Parecia nevoeiro,
não o segui.



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Duvidar

Duvidei dos sonhos.
Duvidei da vida.
Duvidei da escolha
que fiz um dia.



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Momentos

Mesmo na escuridão
existem estrelas que brilham.
Mesmo quando tudo parece apagado
existem momentos suaves e de melodia.



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O Vazio

Tudo aconteceu...
E depois ficou o vazio do amor.
Um espaço vazio
que não se consegue ocupar.



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Por e para sentir

Um mar de interrogações.
A buscas de respostas
para preencher o vazio do ser.
As palavras indecifráveis
como uma confusão da alma.



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Segredos

Segredos?!
Onde estão eles?
Só nas profundezas
do ser ou da alma.



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Ser ou não ser?

Ser ou não ser? – eis a questão
Questão complicada esta.
Ser o que os outros sonham.



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Ao fechar os olhos...

Fecho os olhos,
e tudo o que estava distante
me vem à memória.



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Baloiço dos sonhos

Alguém nos empurrava
e tudo era diferente.
Tudo à nossa volta girava.
Podíamos sonhar.
Voar por entre nuvens de algodão.



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O Horizonte


O horizonte está distante.
O distante é sempre um sonho;
Sonho que só a aventura
e a coragem podem concretizar.



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Quando...

Quando os ponteiros
deixam de avançar,
fazendo os relógios parar;
o mundo deixa de girar;
e a música faz-se ouvir.



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Quase

Quase acreditei
no que contemplei,
no que vi,
no que senti.



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Quem me dera...

Quem me dera...
Se o mundo
fosse uma gaveta
que eu pudesse abrir.



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Tudo por um sonho

Por um sonho
escalam-se montanhas,
esvaziam-se mares,
atravessam-se caminhos,
percorrem-se estradas.



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Uma sombra

Há sempre outro eu
que nos persegue.
Uma máscara
que nos esconde.



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Um Povo imbecilizado e resignado...

Um povo imbecilizado e resignado,
humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo,
burro de carga,
besta de nora,
aguentando pauladas,
sacos de vergonhas,
feixes de misérias,
sem uma rebelião,



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À Mesa

Cedo à sofreguidăo do estômago. É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,


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A palavra

A palavra
tem toda a força que lhe queiram dar
não demora não estorva
dura um momento preenche silêncios
é meiga é cortante é até indiferente



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Um poema.

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.



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De mais ninguém se não de ti

De mais ninguém se não de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.



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A escada da Vida

Encontrou-se a Caridade
Com o Orgulho, certo dia:
Subia o Orgulho uma escada,
E a Caridade descia:



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Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.



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Sunflower

DE TUDO, FICARAM TRÊS COISAS:
a certeza de que estamos sempre começando...
a certeza de que é preciso continuar...
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...



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Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.



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Beleza Urbana

A inocente e pequena flor
crescia ousada teimosa solitária
na selva de betão
de tantos e tantos prédios
de tantos e tantos andares
de tantos e tantos automóveis



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Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.



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História Natural

Cobras cegas são notívagas.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no vôo.
O mundo não é o que pensamos.



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Feiticeiro sem deuses

Feiticeiro sem deuses, reconheço
O limite dos meus encantamentos
Só em raros momentos
De inspiração
Eu consigo o milagre dum poema,
Teorema
Indemonstrável pela multidão.



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Não pode Amor mais que as falas mude

"Não pode Amor mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção o falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.



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Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não



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Sem cheiro ou sabor

Foge doce inocência
vai-se como fragrância a irreverência
perde-se a alegria da liberdade
é tudo muito sério
(seja isso o que for)
e claro importante
solene oficial marcial.



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O meu amor

O meu amor amor
é nobre nas atitudes generosas
na grandeza empenhada
é furtivo no olhar inesperado
na mágoa mórbida.



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Vulcões


Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha



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Lágrima


Dos olhos me cais,
redonda formosura.
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.



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VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.



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Vive a vida. Vive-a na rua

Vive a vida. Vive-a na rua
e no silêncio da tua biblioteca.
Vive-a com os outros, que são as únicas
pistas que tens para conhecer-te.



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Este vento escuro

Este vento escuro
que penetra a minha mente
É denso como um muro
Faz-me ficar doente



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Vede o grande no pequeno!

"...
Vede o grande no pequeno!
Vede o muito no pouco! (...)
Realizai o grande,
Amando o pequeno!



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Soneto à maneira de Camões


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o tormento.



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IV

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!



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Por quem foi que me trocaram

Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.
Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
É que tens para mo dar.



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O meu olhar é nítido como um girassol

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...



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Súplica

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.



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O amor

MOTE
Amor é chama que mata,
Sorriso que desfalece,
Madeixa que desata,
Perfume que se esvaece.
(Popular)


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III

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,



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Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!



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Não pode Amor...

Não pode Amor mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção o falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.



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Quem Morre?

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.



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Aprendi....

Aprendi....
Que a melhor escola do mundo está nos pés dos mais velhos.

Aprendi....
Que quando se está apaixonado não dá para esconder.

Aprendi....
Que se apenas uma pessoa me disser "Você me fez ganhar o dia!", o meu dia está ganho.



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Sonho

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.



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ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.



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MUDE

Mas comece devagar,
porque a direcção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.



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LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.



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Soneto da Separação

Então do riso fez-se o pranto,
Silencioso e branco como a bruma
E das mãos espalmadas fez-se espanto
E das bocas unidas fez-se espuma.



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Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.



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Da minha janela

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito e murmurado...
Voo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!



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Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.



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Todas as cartas de amor

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.



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Eu sou o dono deste casaco

Eu sou o dono, o dono deste casaco
Olhos castanhos, pequeno
Sem esperança,
Em breve morrerei, em breve chorarei
Só para que possas usar, todo orgulhoso, a minha pele



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Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.



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O que me dói

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...



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Realidade

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isto -
Nesta localidade da cidade ...



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XXXI - Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...



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Se a Cada Coisa

Se a cada coisa que há um deus compete,
Por que não haverá de mim um deus?
Por que o não serei eu?



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Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.



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Aqui, diante de mim

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.



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Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,



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XXI - Se Eu Pudesse

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...



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Magia

Uma vontade que vem de dentro
que só pode ser saciada com uma união.
O que é de fora
mas se desenvolve por dentro



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P`ra a mentira ser segura

P`ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.



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Voo de pássaro

Voa, pássaro, voa...
Acima de todo o horizonte...
Em todo o teu esplendor, perdoa...
Quando, de quando em vez, te tiram a fonte!



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Pensar de pernas para ar

Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente



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Há Palavras que nos Beijam!

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

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Lua Adversa!

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

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D'après D. Francisco de Quevedo

Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo-terceiro.
A ceia fui eu, e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.



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Enquanto houver amizade...

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.



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Ceia

Quem não ama não tem alma,
Mas quem tem alma nem sempre ama.
Mas amor, mais valia estar calma
Do que insegura na vida que ama!



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Se eu pudesse falar...

Não passe tão indiferente
só porque eu não sou gente,
só porque não sei falar.
Também sou um ser vivente
sinto as dores que você sente,
mas não posso me expressar.



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Os inocentes condenados

Eu não sei onde estou
Eu estou preso

Porque estou aqui?
Porque estou sozinho?



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Rastilho

A traição persegue-me, qual rastilho infindável...
Por quanto tempo ainda mais resta
Para que chegue ao seu destino inevitável?
E expluda até mais não, e marque, e deixe a sua dor...



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Olhar a consciência

Quando os olhos se abrem,
É pela primeira vez
O olhar desvenda

Os olhos abrem-se,
Revelam uma consciência



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Pássaro na gaiola

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos; e tudo:
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

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A minha estrela

Uma brisa suave
me acaricia a face.
E a melodia da música
parece embalar-me.



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A hipocrisia

Só quando a hipocrisia
Cair do seu pedestal
Nascerá, dia após dia,
Um sol pra todos igual.

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Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.



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Começo a conhecer-me

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida...



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Põe-me as mãos nos ombros

Põe-me as mãos nos ombros…
Beija-me na fronte…
Minha vida é escombros
A minha alma insone.



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O gato

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão

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Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita



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Cântigo Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali....

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Poeta castrado não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

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Receita para fazer um Herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.

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Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.

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Uma história vulgar

Ouvir a tua voz, outrora, era o bastante
Para sentir, enfim, justificada, a vida;
E supor que podia, a partir desse instante,
Abrir, impunemente, ao mundo, confiante,
Minh`alma enternecida.

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À memória de Fernando Pessoa

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,

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A Cruel História do Natal na Capoeira

"No dia 1 de Dezembro o Peru começa
A andar com tremuras tonturas dores de cabeça
Paga as dívidas vende a mobília
E no dia 23 reúne a Família
Os filhos os amigos toda a gente
Despedindo-se deles pateticamente

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O nome do cão

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,
mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

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O último andar!

No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.

O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.

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Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

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Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.



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Amar

Dizes que amas a chuva,
e tu fechas a janela.

Dizes que amas as flores,
e tu cortas-lhes o caule.

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Primeiro Domingo

A tarde estava errada,
não era dali, era de outro Domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

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Corpo

Não consigo calar
Meu corpo nem meu querer
é uma força constante
Bem maior do que a minha voz
Vem de dentro
E não quer se calar
Vou dizer tudo
Nem que faça doer

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Agora É

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor



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Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.



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Mulheres

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

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A forma justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre



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Poesia-Orgasmo

De sílabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

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Balança

Com pesos duvidosos me sujeito
A balança até hoje recusada
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir ou ser julgado.



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Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.



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Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.



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As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.



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Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.



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Surdo, Subterrâneo Rio

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.



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As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.



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O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?



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Poema a Boca Fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.



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Sinto a tua falta

Sinto a tua falta
na mão que não aperto.
Procuro e não te encontro
no ombro que não me acolhe.



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Frente a frente

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.



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Um Homem na Cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.

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Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sol montanhas cinzentas

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Rotina

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,



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Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação



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Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.



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Albatroz

Sobre a superfície cinzenta do mar,
O vento reúne
Pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro,
Entre as nuvens e o mar,
Paira orgulhoso o albatroz,
Mensageiro da tempestade.



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Na biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.



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Precisa-se de um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano,
basta ter sentimentos, basta ter coração.

Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.

Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros,
de sol, de lua, de canto, dos ventos
e das canções da brisa.

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Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.



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Descubra o Amor

Pegue um sorriso
e doe-o a quem jamais o teve.

Pegue um raio de sol
e faça-o voar lá onde reina a noite.

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Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.



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Pelo sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

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Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis



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A ponte de arco-íris

(Dedicado à Mercy)

Ficas a pensar porquê e como
Algumas pessoas são tão más
Elas magoam almas indefesas
Os seus corações são de pedra, oh Mercy



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Pára porque isso dói

Quando escapar com vida, vou trepar às árvores
E balançar-me-ei nos ramos tal como as águias voam
Quando escapar com vida...

Quando escapar com vida, vou correr como o vento
e mostrarei ao meu senhor que o amo...
Quando escapar com vida...



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Abandonado na Roménia

Abandonado numa cidade da Roménia
Por todo o lado o odor da morte...
A compaixão não é uma dádiva na Roménia
Tens sorte se ficares com as sobras


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Eu quero correr livremente

Sou teu amigo, sou teu guerreiro
Corro as tuas corridas, percorro as tuas milhas
Nunca desisto, sob a tempestade,
Agora preciso de ti, para partilhar as minhas provações



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Canção do vitelo sem mãe

Estou a ser levado, estou a ir para lado nenhum
Tenho tanto medo e quero a minha mamã
Sinto estas mãos que me empurram e maltratam
Sei que estou condenado e que ninguém me ama


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A carne no teu prato é a minha morte

Estou a sangrar por ti, estou a sangrar por ti
vais-me cortar em pedacinhos...
Tudo o que eu quero é existir
Tudo o que preciso está dentro de mim
Mas tu, tu, tu, tu, tu
Tu queres sangrar-me
Porque tu queres comer-me


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Saudade

Saudade do que não sinto.
Saudade do que não vejo.
Saudade do que não tenho,
e desejo.



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Levantem-se - tornem este momento eterno

Da terra ao mar
da montanha à costa
ouvimos a tua voz
na tua dor, na tua necessidade
estamos aqui em tua defesa
queremos salvar-te


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História do cachorrinho Fozzie

Olá, o meu nome é Urso Fozzie
Vivo cá em cima, nas nuvens celestiais
Vivi uma curta vida
Morri nos braços de alguém especial
Oh, ela era boa e generosa comigo
E disse-me que eu era muito doce
Oh, ela cuidou de mim e eu fui corajoso
Gostava mesmo de aí ter permanecido


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Eles querem matar

Avançando sobre o gelo como comboios no seu rasto assassino
Numa missão directamente do Inferno.
Corações enegrecidos que vertem sangue
Deixando corpos como invólucros despedaçados.
Filados em todas as criaturas vivas
Não sobra nada até eles partirem
Olhos arrancados às suas feições celestiais
A beleza perdida na descrença...



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Não quero lutar mais

Não quero lutar mais
Mas sou uma máquina rugidora.
As minhas cicatrizes de batalha amontoam-se umas sobre as outras
Eles não me deixarão escapar.



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Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.



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Andrew

O teu espírito vive nos nossos corações

Oh Andrew
Eles tentaram levar-vos a todos daqui
Oh Andrew
Oh a escuridão do Homem
é uma mancha em toda a humanidade
mas tu continuas a fazer-nos sorrir

a tua doce recordação...



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O que é a vida

A vida é uma oportunidade use-a
A vida é beleza admire-a
A vida é prazer goze-o
A vida é sonho concretize-o
A vida é desafio aceite-o
A vida é dever cumpra-o

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Fiel

Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
Havia o que quer que fosse
Dum íntimo desgosto:
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
À busca dum jantar.
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza oceânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas;
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada:
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.



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Se fosse animal

Se fosse animal
seria natural
seria espontâneo
viveria o presente
seria sempre inocente

Se fosse animal
não saberia o que é o mal
não viveria em sociedade
seria fiel aos sentimentos
não faria julgamentos



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