Pneus usados

Como é sabido, os pneus usados espalhados dentro e fora das lixeiras constituem um perigo ambiental sob vários aspectos. Sendo, no entanto, classificados na Lista Europeia de Resíduos como resíduo não perigoso (16.01.03), não podemos deixar de constatar que um pneu abandonado constitui uma bomba, pronta a deflagrar, se for incendiado. Também sabemos que os pneus abandonados funcionam como abrigo de ratos, cobras e outros animais e depois das chuvas como potenciais viveiros de mosquitos. Passando revista a vários apontamentos sobre pneus, julguei pertinente fazer uma listagem dos mais interessantes, de modo a abranger um vasto leque de conhecimentos da problemática dos pneus usados.

Esta listagem não está encadeada, mas sim numerada, de modo a permitir uma fácil referência para abordagem de qualquer dos tópicos apresentados.

#18 - Resíduo não perigoso:

Qualquer que seja o tipo de classificação que se considere há resíduos banais e outros que podem ser nocivos para o homem e restantes seres vivos. Estes últimos designam-se genericamente por resíduos perigosos em função do seu carácter tóxico, corrosivo, explosivo, radioactivo, etc., e do modo como são manipulados no meio ambiente durante o seu ciclo de vida como produto útil ou como resíduo. Uma tal designação é demasiado vasta, por vezes ambígua, e causa apreensões acrescidas na opinião pública.

#76

Um dos problemas gerados pela expansão do tráfego automóvel é a acumulação de pneus usados. Em Portugal, segundo o INE, o valor de vendas resultante do fabrico de pneus e câmaras-de-ar atingiu 31 milhões de contos em 1997, sendo este valor apenas referente à produção nacional. Tipicamente um pneu de automóvel pesará entre 9 e 13 kg, dos quais cerca de 60% é constituído por borracha - uma mistura de borracha natural (35%) com borracha sintética (65%).

A acumulação de pneus ao ar livre constitui um problema ambiental: devido à forma côncava do pneu, verifica-se a acumulação de água que favorece o desenvolvimento de mosquitos; um incêndio num depósito de borracha é de difícil extinção, sendo os fumos da combustão completamente nocivos para a saúde.

A deposição em aterro levanta também problemas: o metano gerado pela decomposição da matéria orgânica tende a acumular-se dentro dos pneus e, devido à retenção de ar ou de metano, os pneus tendem a flutuar quando o aterro é inundado pelas chuvas.

Nos EUA os pneus são na sua maioria utilizados como combustível.

Destino dos pneus usados nos EUA em 1999
:

1,4%

Várias aplicações

4,7%

Usados em aplicações de engenharia civil.

5,5%

Produtos processados (granulado, etc.)

5,9%

Exportação

31%

Deposição em aterro, armazenados, ou em deposição ilegal.

51,4%

Usados como combustível.



Dos 253 milhões de pneus usados dos EUA, parte deles são recauchutados. Segundo a USEPA (1999), o uso de pneus recuperados por recauchutagem permite poupar 70% de energia petrolífera, reutilizar cerca de 75% do material incorporado e reduzir os custos de 30 a 70%, poupando ainda a ocupação de aterros.

Em Portugal o volume de vendas de pneus recauchutados ascendia em 1997 a 8 milhões de contos. Uma parte dos pneus pode ser utilizada em diversas aplicações, depois de uma operação de corte ou moagem, utilizando diversas tecnologias de corte por lâminas, uso de moinhos abrasivos ou fragilizando primeiramente a borracha pelo uso de azoto líquido (moagem criogénica). Entre as diversas aplicações podemos citar o fabrico de novos pneus com incorporação até 50% de granulado de borracha, de tapetes, guarda-lamas, pára-choques, solas de sapatos e incorporação no asfalto de estradas, com excelentes resultados na redução do ruído (até 90%) e de redução do problema do aquaplanning, permitindo duplicar o tempo de vida dos pavimentos. Em Portugal, existe uma empresa com capacidade para a produção de 20 mil toneladas anuais de granulados de borracha.

Apesar da reutilização dos pneus e da sua reciclagem, a verdade é que o mercado não absorve senão uma pequena parte dos pneus usados. Cerca de metade dos pneus usados nos EUA em 1995 foram utilizados como combustível. A USEPA sublinha o facto da combustão em condições controladas nada tem a ver com os problemas de emissão de fumos resultantes da queima ao ar livre (USEPA, 1999), possibilitando uma economia de peso equivalente em petróleo e cerca de 25% maior do que usando carvão.

#84 Reciclagem:

Sem empresas de recauchutagem, a reutilização de pneus não passaria de uma utopia. Sem empresas de reacondicionamento e campanhas incentivando a substituição dos objectos que "já passaram de moda", a política dos três R`s reduz-se ao actual "r" como o mais pequeno.

#127 Queima de pneus em forno de cimenteira:

Note-se que o processo mais simples de introduzir resíduos será a sua adição à carga da rocha que vai alimentar o forno. Esta prática conduziu a resultados desastrosos, pois o processo de queima é feito em contracorrente, isto é, a carga vai ser aquecida progressivamente antes de chegar à zona de combustão. Assim, as substâncias voláteis poderão ser arrastadas antes de atingirem a temperatura necessária à sua completa destruição.

#132 Pelo contrário, o tratamento de resíduos contendo materiais orgânicos voláteis terá de ser feito com a introdução dos resíduos na zona dos queimadores, deslocando-se a carga no sentido dos gases pois, caso contrário, haveria vaporização dos produtos orgânicos na zona mais fria do forno, o que provocaria a sua saída da câmara de combustão sem terem sido completamente destruídos.

#138 Os gases entram na base da torre de ciclones a temperaturas acima dos 800ºC e saem no topo da torre a temperaturas da ordem dos 300ºC. Nestes sistemas, quando a farinha entra no forno rotativo já se encontra com mais ou menos 30% da calcinação efectuada. Para aumentar a eficiência do sistema, uma fracção minoritária do combustível pode ser queimada num queimador secundário na base da torre de ciclones. Neste local podem ser adicionados valores da ordem dos 15-25% da energia térmica total.

Entre o pré-aquecedor, formado pela torre de ciclones, e o forno rotativo, para aumentar a capacidade de produção de clinquer, pode-se adicionar uma câmara de combustão especial, denominada pré-calcinador, onde quantidades de combustível da ordem dos 60% do seu total podem ser queimadas. Esta energia é basicamente utilizada para descarbonar a matéria-prima que entra no forno rotativo quase totalmente calcinada.

#140 A energia necessária à secagem, à calcinação e à sintetização do clinquer é obtida pela queima de uma variedade de combustíveis, dos quais os mais comuns no presente em Portugal são o carvão mineral e o coque de petróleo (petcoque). Outros combustíveis também usados na Europa são o fuel, o gás natural e combustíveis alternativos como pneus usados, papel velho, resíduos de madeira, etc.

#141 Devido às altas temperaturas mantidas na parte final do forno, um conjunto de materiais presentes na matéria-prima ou no combustível, tais como sulfatos e cloretos de sódio e potássio (alcalis) são volatilizados e arrastados para a entrada do forno. Ao encontrarem temperaturas mais baixas, da ordem dos 800ºC, estas substâncias alcalinas condensam, sendo arrastadas novamente para o interior do forno.

#145 Alguns CO (óxido de carbono) e VOC (compostos orgânicos voláteis) poderão acontecer principalmente em casos em que se efectua um fornecimento de combustível não totalmente controlado e/ou em que há uma mistura pouco eficaz com o ar comburente, originando localmente uma deficiência de oxigénio, tais como a queima de pneus inteiros, principalmente se forem de elevada dimensão.

#158 Uma das alternativas mais utilizadas em fornos com pré-aquecedor ou pré-queimador consiste na introdução dos resíduos sólidos directamente no pré-calcinador, ou entre o pré-aquecedor e o forno rotativo. Nestes locais, é adicionado um sistema de dupla gaveta que permite a adição controlada (?) de material sólido sem problemas de entrada excessiva de ar para dentro do sistema. É nestes locais que normalmente são queimados pneus inteiros. A queima de resíduos nesta zona do forno não é efectuada com as mesmas condições de tão elevada temperatura e tempo de residência, como no queimador principal, pelo que não é aconselhável a sua utilização para a queima de resíduos perigosos (RDC e KEMA, 199).

#238 A unidade de Maceira queima pneus inteiros há vários anos .Este procedimento causa alguma instabilidade no processo de queima. Por isso, a queima de RIP (Resíduos Industriais Perigosos) associada à dos pneus inteiros pode criar condições de queima que não são as melhores.

#239 Mas a existência em Maceira de duas entradas para queima dificulta uma verificação (?) para se reconhecer se o sistema está a trabalhar nas melhores condições para a queima de RIP, dada a instabilidade causada pela queima de um pneu inteiro com a consequente deficiência temporária de oxigénio e o aparecimento de picos de TOC (Carbono Orgânico Total). Por todo este conjunto de razões, a CCI (Comissão Científica Independente) não recomendava a queima de resíduos industriais perigosos na cimenteira de Maceira.

Fim da listagem.

Num trabalho realizado em 04/02/99 sobre a co-incineração (três meses antes da constituição da CCI) escrevemos a propósito da queima de pneus:
«Quanto à queima dos pneus, há 10 anos que a cimenteira da Maceira foi autorizada a queimar oito ton/dia. A população dos lugares de A-do-Barbas e Maceirinha, que recebem os ventos dominantes vindos do lado da fábrica de cimento, são afectadas pelo "pó de cimento" e pelo "pó de pneu". O primeiro é cinzento e o segundo é preto.

Podemos especular sobre o que se passa, pois não temos elementos do local e admitir que o pó cinzento se deve ao cimento arrastado por falha dos electro-filtros.

Quanto ao pó preto poderá ter duas origens:
1. o próprio combustível usado, episodicamente mal queimado e arrastado nos gases (pouco provável)
2. resultado da combustão incompleta de pneus.»

Depois de ler o parecer da CCI sobre o tratamento de RIP confirmaram-se as suspeitas da combustão incompleta de pneus. Apesar desta situação continuar, o que é lamentável, constituindo um mau cartaz para o processo, verificamos que a recomendação «a queima dos RIP deve ser efectuada no queimador principal» não foi implementada.

E para terminar, várias notícias dos jornais:

10/02/2001 - Sines inaugura empresa de reciclagem de pneus.

No parque industrial de Sines foi inaugurada a empresa Recipneu, ligada à reciclagem e reutilização de pneus. O projecto terá capacidade para reciclar cerca de 15 mil toneladas de pneus por ano. Também entrará em funcionamento a Recipave, outra unidade do mesmo sector. Nesta, o processo de reciclagem envolve a criogenia (congelação por azoto líquido), que produz a fragmentação da borracha. O produto resultante destina-se à pavimentação de estradas. Este projecto, primeiro em Portugal, é financiado pelo IPE - Investimentos e Participações Empresariais - que, para o efeito, criou o Recigrupo.

17/09/2001 - África do Sul recebe pneus usados.

Uma pequena empresa familiar da freguesia de Famões exporta pneus para a África do Sul, que são recauchutados no destino. Cerca de 30 a 40 mil pneus de ligeiros por mês. Paralelamente, fazia a recolha e o transporte de pneus para a Maceira. Com as novas condicionantes da reciclagem e reutilização de pneus, ao presente faz a recolha e leva-os para Sines para reciclar.

21/02/2003 - Com a formação da Valorpneu, empresa destinada a valorizar os pneus usados, foram estabelecidas as metas para cumprir até 2007

A recolha de pelo menos 95% dos pneus usados retirados todos os anos da circulação e recauchutar pelo menos 30% da quantidade recolhida. Da totalidade de resíduos recolhidos e não recauchutados deverão ser reciclados 65%. Os restantes podem ser valorizados energeticamente (incinerados ou co-incinerados).

Há apenas duas recicladoras licenciadas: em Ovar e Sines. A cimenteira de Maceira está integrada na rede de clientes da Valorpneu. Vinte dias depois de entrar em funcionamento o sistema de recolha e tratamento de pneus usados, deu-se o entupimento do sistema por não ter a cimenteira da Maceira capacidade para incinerar todo o material recebido. O excesso deve-se ao facto de que muitas cargas são de pneus armazenados há anos. Estima-se que haverá em Portugal mais de 60 mil toneladas desse material, sem contar com o volume incalculável de pneus abandonados clandestinamente em matas e terrenos baldios.
A prioridade da Valorpneu vai para as 55 mil toneladas de pneus usados, retirados da circulação. As existências antigas serão tratadas progressivamente. Em funcionamento desde o dia 01/02/2003, visa dar fim a 70 mil toneladas em 2003. Este ano serão tratadas 15 mil toneladas dos resíduos acumulados e em 2004 serão tratadas 71 mil e quinhentas toneladas, das quais 16 mil e quinhentas são de material antigo.


Copyright Centro Vegetariano. Reprodução permitida desde que indicando o endereço: http://www.centrovegetariano.org/Article-248-Pneus-usados.html

Inserido em: 2003.11.08 Última actualização: 1999.11.29

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Comentários



Granulado de borracha

Acerca da notícia de 10/02/2001 - Sines inaugura empresa de reciclagem de pneus, tenho a dizer o seguinte:

A Recipneu, empresa empresa pertencente ao grupo à
Águas de Portugal, de facto iniciou a sua actividade com a reciclagem de pneus. Neste momento é mais do que isso. Produz granulado de borracha a partir de pneus em fim de vida, através de trituração mecânica e dum processo de moagem criogénica resultando vários tipos de granulados.
A sua utilização tem como vertentes:
- a utilização de BMB (betume modificado de borracha) nas estradas;
- a utilização em picadeiros, pelas suas caracrteristicas elastómeras;
- a utilização em campos de futebol com relvado sintético.

Para mais informações consultar o site: www.recipneu.com

(Por: Carlos Martins)

[Por: @ 2007.02.27 - 21:36 | Responder | Imprimir ]


NR

Sim ! desde que as solas sejam de borracha.

[Por: @ 2005.10.10 - 24:00 | Responder | Imprimir ]


Pneus

Ex.mos Srs
o referido para os pneus é válido para borrachas e solas de sapatos?
Fernando F

[Por: @ 2005.10.10 - 24:00 | Responder | Imprimir ]


NR

O artº "Pneus usados" pretende dar uma panorâmica dos vários problemas dos pneus ao serem classificados como "resíduo não perigoso", e dos destinos possíveis: queimar, recauchutar, etc.


a) Não se pretende defender qualquer posição e precisamente por isso, ficaram muitas questões por responder.

Num futuro art. serão apresentadas outras alternativas interessantes.


b) Os gases desenvolvidos pela queima de pneus (ou borracha) são compostos muito tóxicos derivados do petróleo, contendo enxofre, anidridos, etc. Decerto que são prejudiciais à saúde tanto assim que é expressamente proibido queimá-los fora das instalações apropriadas devidamente licenciadas.


c) Os pneus reciclados sempre foram "objecto de desconfiança" porque normalmente não são garantidos. Se mesmo um pneu novo pode estoirar, que dizer de um recauchutado? Nem pensar em grandes velocidades.


d) Ao queimar os compostos de metais pesados misturados a outros compostos combustíveis, podem ser libertados os metais se as temperaturas forem suficientemente altas.


Se forem queimados numa central termoeléctrica o perigo é o mesmo desde que não tenha tratamento especial dos efluentes gasosos. Por outro lado o perigo mantém-se nos resíduos da queima (escórias e cinzas).


[Por: @ 2005.10.10 - 24:00 | Responder | Imprimir ]


Borrachas

Ex.mos Srs
que gases nocivos para a saúde são expelidos com a queima de borrachas, solas, pneus? esses gases poderão ser absorvidos pelas plantas e entrar na cadeia alimentar do gado que se alimenta dessas ervas? que efeitos terão no leite e na carne? e no mel das abelhas?
Fernando

[Por: @ 2005.10.10 - 24:00 | Responder | Imprimir ]


E a segurança?

O artigo parece defender que é melhor reutilizar pneus...
Bem eu não sou especialista na matéria, mas para já vejo duas questões imporantes:
1) Um pneu reciclado oferece a mesma segurança de um novo?
Concerteza que ninguém quer arriscar a vida na estrada só para poupar um pouco o ambiente...
2) Um pneu reciclado dura tanto como um novo? Se bem me lembro li algures que dura menos. Então, durando menos, será que compensa mesmo reciclar? Ou acabamos por poluir o mesmo que produzindo pneus novos, porque temos de produzir mais?
Achei o artigo interessante, mas há muitas questões que ficam por responder... talvez a/o autor(a) possa esclarecer melhor...
MA, Barreiro

[Por: @ 2005.10.10 - 24:00 | Responder | Imprimir ]