Viver sem carne - uma escolha saudável para as crianças

O vegetarianismo não é um fenómeno novo. O antigo filósofo e matemático grego Pitágoras e muitos dos seus seguidores abstiveram-se de comer carne e viveram de forma saudável e produtiva. Centenas de anos mais tarde, o movimento vegetariano Norte-Americano iniciou-se como reacção a uma crescente industrialização e às mudanças sociais. Foi sobretudo apoiado pela doutrina religiosa da Igreja Cristã Bíblica (Bible Christian Church), que culpava a carne de ter um efeito devastador sobre o desenvolvimento e equilíbrio moral das pessoas. A carne era, ainda, considerada como comida desviante com efeitos perigosos para a saúde dos seres humanos. Ao longo do tempo, muitos adultos foram escolhendo viver sem carne na sua dieta. No entanto, enquanto uma dieta vegetariana em adultos é largamente aceite como benéfica, uma mesma dieta em crianças causa um certo sentido de privação, não só aos olhos do público em geral como também pelos profissionais de medicina.

Assim sendo, se uma dieta vegetariana traz benefícios a um adulto, poderá uma dieta sem carne fornecer todos os nutrientes necessários a uma criança e, mais tarde, a um jovem adolescente, cujo corpo e cérebro se encontra em rápido crescimento? Investigações científicas convencionais confirmam que as crianças podem gozar de uma vida equilibrada em termos nutricionais sem comer carne, uma vez que uma dieta baseada em plantas pode preencher os requisitos de nutrientes considerados necessários a uma boa saúde e desenvolvimento adequado.
Organizações de saúde de renome aprovam uma dieta vegetariana equilibrada, tão saudável em termos médicos como uma convencional dieta carnívora para crianças.

Em qualquer fase da sua vida, as crianças têm necessidade de uma dieta bem equilibrada e são especialmente vulneráveis a carências nutricionais. De forma a assegurar um desenvolvimento saudável durante a fase pré-natal, a infância e a adolescência, há determinados nutrientes que devem ser obtidos através da comida. Estes nutrientes, entre outros, proteínas, cálcio, vitaminas e ferro, são necessários ao desenvolvimento do sistema nervoso, cuja falta pode levar a graves falhas das capacidades motoras e cognitivas. O rápido crescimento infantil requer quantidades adicionais de calorias e nutrientes.
Em "Nutritional risks of vegan diets", Dwyer e Loew sublinham que, para evitar uma má nutrição, as crianças em fase pré-natal, na infância e na adolescência, precisam de "mais nutrientes por quilocaloria de comida ingerida" ou, por outras palavras, de comida altamente nutritiva. (59)
Depois de longos anos de constantes discussões acerca da inferioridade das proteínas vegetais, o "Dietary guidelines" de 2005 da USDA, confirma, explicitamente, a suficiência de uma ingestão adequada de proteínas vegetais. (Maurer 39)
Se as crianças não receberem proteínas animais através do consumo de ovos e lacticínios, deverão comer uma ampla variedade de legumes, frutos secos, sementes e cereais integrais. Deste modo, os seus corpos receberão proteínas suficientes para produzir, restaurar e sustentar as células.
Em "Vegan children", C. Coughlin acrescenta que as sementes e os frutos secos não só fornecem as proteínas e minerais necessários às crianças, mas também fornecem a grande quantidade calórica necessária ao seu desenvolvimento.(2)

Embora as plantas disponibilizem as proteínas, elas não podem fornecer a vitamina B12. Sendo um nutriente importantíssimo na constituição do corpo humano, uma deficiência desta vitamina pode causar danos muito graves no sistema nervoso. Uma vez que é somente produzida no sistema digestivo dos animais, as crianças vegetarianas devem obtê-la através do consumo de produtos lácteos ou ovos. (Maurer 102). Os veganos, por outro lado, têm que tomar suplementos vitamínicos ou comida com adição de vitamina B12, tal como bebidas multi-vitaminadas, que costumam ser do agrado das crianças. (Coughlin 4)
O ferro é outro nutriente indispensável e responsável pelo transporte de oxigénio. Apesar da biodisponibilidade do ferro ser mais alta na carne - o que significa que é mais facilmente absorvido - muitos vegetais são abundantemente ricos em ferro. (Wisely 6)
N. Barnard e K. Kieswer advertem, no seu trabalho "Vegetarianism, the healthy alternative", que o consumo de carne vermelha causa, muito facilmente, um excesso de ferro, o que catalisa a configuração de radicais livres. Estes compostos altamente instáveis e reactivos podem causar danos celulares, vulgarmente conhecidos como cancro. (49)
Consequentemente, se as crianças vegetarianas retiram a sua quantidade necessária de ferro das plantas de folha verde, frutas, legumes e leguminosas (grão, feijão, etc), os seus corpos demoram mais tempo a absorver o ferro das plantas mas, ao mesmo tempo, reduz a sobrecarga de ferro e o risco de cancro. Contudo, como a anemia por falta de ferro é o problema de saúde mais comum em bebés e crianças nos E.U.A., vegetarianos ou carnívoros, Dwyer e Loew propõem que se tenha um cuidado especial com a ingestão de ferro por parte de bebés e crianças pequenas e, se necessário, fornecer-lhes suplementos de ferro ou comida fortificada com adição de ferro. (64-65)
Em alternativa, as crianças podem aumentar a sua absorção de ferro com bebidas ricas em vitamina C, ou alimentos como sumo de laranja, melancia ou pimentão-doce (paprika).
Em contraste com as deficiências de ferro, as deficiências em cálcio são muito pouco prováveis em crianças vegetarianas. Para além dos produtos lácteos, uma grande variedade de alimentos como brócolos, sementes de girassol, vegetais de folha verde, frutas e feijões, fornecem perfeitamente este mineral, de acordo com M. Wisely em "Raising a vegan child"(5). Isto significa que as crianças com uma dieta à base de plantas recebem cálcio suficiente para o desenvolvimento de ossos e dentes fortes. Maurer acrescenta que os vegetarianos têm reservas de cálcio superiores às dos carnívoros, devido à falta ou diminuição das quantidades de proteínas animais (51).
Uma vez que o cálcio é responsável pelo regulamento da tensão arterial e pelos movimentos musculares, uma disponibilidade aumentada de cálcio parece melhorar a saúde de uma criança tanto num futuro próximo como distante.

Já que é evidente que uma dieta vegetariana equilibrada fornece todos os nutrientes necessários a uma criança, põe-se uma outra questão: Poderá uma dieta sem carne funcionar como factor preventivo e/ou paliativo em doenças? Poderá a exclusão de carne levar à diminuição de doenças graves?
Um número substancial de investigações científicas demonstra, sem sombras de dúvida, a acção preventiva de uma dieta baseada em alimentos vegetais. Por outro lado, é um facto bastante conhecido de que as grandes quantidades de gordura, gordura saturada e colesterol da carne e produtos lácteos estão associadas ao aumento de doenças coronárias, cancro, obesidade, acidentes cardio-vasculares, e diabetes tipo 2. A sobrecarga de proteína animal pode, também, levar à osteoporose e à insuficiência renal (falha dos rins), em contraste com as proteínas vegetais, que diminuem o risco de perda de densidade óssea, conservando melhor o cálcio nos ossos (Barnard e Kieswer 52). Dwyer e Loew chamam a atenção para a correlação existente entre a quantidade de proteína animal ingerida na infância e a densidade óssea que se tem décadas depois (64).
Tendo 65% da população norte-americana problemas de excesso de peso ou obesidade, as crianças sofrem com a gordura, o que leva à obesidade, diabetes, ataques cardíacos e insuficiência renal. Dietas vegetarianas com grandes quantidades de fibra e hidratos de carbono parecem contribuir para uma diminuição de peso, por conservarem menos de 50% das chamadas calorias gordas, não tendo as crianças que passar por curas de fome intermináveis e diminuindo o risco de diabetes tipo 2 e hipertensão (Barnard e Kieswer 51,54). As dietas à base de plantas também impedem que as crianças apanhem infecções por carne contaminada como a BSE/Doença de Creutzfeldt-Jacob, salmonela, ou infecções do cólon pela bactéria escherichia coli, (e. coli - responsável por algumas formas de gastroenterite), que podem provocar infecções muito graves ou mesmo fatais. Além disso, as crianças que comem carne adquirem resistência aos fármacos, devido ao excesso de antibióticos aplicados aos animais para criados para abate. Acrescenta-se o facto de cada vez haver mais estudos que demonstram o contributo de uma dieta vegetariana na prevenção de alguns tipos de cancro, revelando números de taxas de mortalidade até 76% mais baixos do que a restante população Barnard e Kiewer 47). Estas estatísticas impressionantes estão associadas a uma dieta sem carne, mas também à ingestão de antioxidantes obtidos através dos alimentos vegetais, que previnem ou reduzem a formação de radicais livres. Isto significa que as crianças que tenham uma dieta à base de plantas reduzem enormemente o risco de virem a sofrer de cancro.

No seu livro "Vegetarians and Vegans in America today", K. e M. Iacobbo documentam, ainda, efeitos paliativos ou a reversão de efeitos em certas doenças crónicas, após iniciarem dietas vegetarianas (77). Crianças com esclerose múltipla e diabetes tipo 2 podem abrandar a progressão da doença ou mesmo melhorar a sua condição médica com uma dieta pobre em gorduras baseada quase exclusivamente em produtos de plantas.
Uma dieta sem carne não só produz efeitos na condição física e no bem-estar da criança, mas também tem impacto no desenvolvimento psicológico, social, intelectual e espiritual da pessoa.
Enquanto que os adultos se tornam vegetarianos por razões de saúde, as crianças e adolescentes parecem preocupar-se mais com os direitos dos animais e com o bem estar deles. Preocupam-se também com os efeitos sobre o ambiente e com a fome a nível mundial. Tudo isto se junta ao pensamento de viver em uníssono com a natureza, o que, por sua vez, gera crianças mais graciosas e menos agressivas (Maurer 71). Esta paz e harmonia com o mundo dá à criança vegetariana um sentimento positivo acerca de si mesma e contribui para uma abordagem holística. Os Iacobbos chamam a isto o "poder positivo transformador" da dieta vegetariana no corpo e na alma, não só tornando possível que os seres humanos vivam uma vida compassiva, mas também a permitir-lhes grandes feitos em termos de performance e endurance em atletismo (73-80). Crianças ou adolescentes que pretendam seguir uma carreira em atletismo só têm a beneficiar com uma dieta vegetariana seguida desde a primeira infância.
Provas científicas têm demonstrado que uma dieta vegetariana baseada em fruta fresca, vegetais e cereais integrais cobre perfeitamente todas as necessidades nutricionais das crianças. As crianças vegetarianas podem obter as quantidades adequadas de proteínas essenciais, vitaminas e minerais através do consumo de produtos de plantas e lacticínios. Se os pais tiverem o cuidado de lhes oferecer uma dieta vegetariana bem planeada, com as quantidades adequadas de nutrientes, as crianças podem gozar de uma vida equilibrada e saudável. As dietas à base de plantas também dão boa saúde por conterem menos gordura saturada e colesterol e mais fibra e antioxidantes do que as dietas à base de carne. Ao ingerirem fibra e antioxidantes quando comem frutos, vegetais, cereais integrais e grãos, as crianças reduzem os riscos de certas doenças e condições degenerativas e, ainda mais, as crianças vegetarianas têm a oportunidade de atingir níveis superiores desportivos.
O seu compromisso ético para com os animais e o ambiente não só beneficia toda a humanidade como a eles mesmos.


Fontes:
- Barnard, Neal and Kristine Kieswer, "Vegetarianism: The Healthy Alternative." Food For Thought. Ed. Steve F. Sapontzis. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004. 46-56.
- Coughlin, Carol M., "Vegan Children." Vegetarian Nutrition. Gale Group. 30 Mar. 2007 http://www.andrews.edu/NUFS/Vegan%20Children.html" target="_blank">//www.andrews.edu/NUFS/Vegan%20Children.html .
- Dwyer, Johanna T. and Franklin M. Loew. "Nutritional Risks of Vegan Diets." Food For Thought.Ed. Steve F. Sapontzis. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004. 57-67.
- Iacobbo, Karen and Michael. Vegetarians and Vegans in America Today. Westport: Praeger Publishers, 2006.
- Maurer, Donna. Vegetarianism: Movement or Moment. Philadelphia: Temple Univ. Press, 2002.
- Sapontzis, Steve F., ed. Food for Thought. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004.
- Wilson, Melanie. "Raising a Vegetarian Child." La Leche League International July–August 2000. Gale Group. 30 Mar. 2007 http://www.lalecheleague.org/NB/NBJulAug00p131.html." target="_blank">//www.lalecheleague.org/NB/NBJulAug00p131.html.



Referências:
SCHALLER, Monica, Meatless, a healthy choice for children. (Tradução de Sónia Cruz)



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Inserido em: 2007.06.22 Última actualização: 2011.04.02

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